Nanicos já batem ponto na corrida pela presidência
Pedro Venceslau | Agência Estado
Enquanto os três principais personagens da eleição presidencial
de 2014 - Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB)
- desconversam quando questionados sobre a oficialização de seus nomes e
dizem que isso é assunto para o segundo trimestre, os coadjuvantes da
disputa já se assumiram. Em 2014, a campanha contará com pelo menos oito
postulantes de legendas pequenas e que contam com escasso tempo de TV e
recursos.
Sem chances de chegar ao 2.º turno, os
integrantes do segundo pelotão podem sonhar em, pelo menos, tentar
evitar o fim da disputa numa única etapa. Se nenhum deles desistir da
candidatura, essa será a eleição com o maior número de candidatos
nanicos ao Palácio do Planalto desde 1998, quando nove representantes de
siglas pequenas se apresentaram. Naquele ano, quando Fernando Henrique
Cardoso se reelegeu, o melhor colocado da parte de baixo da tabela foi
Enéas Carneiro, com 1,4 milhão de votos.
Em 2014, o time de nanicos contará com alguns personagens que integram o folclore eleitoral da última década.
Conhecido
pelo mote do "aerotrem", um trem de superfície que resolveria todos os
problemas de mobilidade urbana do País, Levy Fidelix, do PRTB, disputa o
Palácio do Planalto pela terceira vez. Fidelix, que promete encampar
bandeiras "de direita", com o apoio do Partido Militar, que não existe
legalmente, se recusa a revelar quem apoiará no 2.º turno. Motivo: ele
garante que estará lá.
"Serei o único candidato de direita
nessa eleição. Vou endireitar o Brasil e combater a presidente Dilma
Rousseff", avisa. Líder máximo e criador do PRTB, Fidelix promete,
ainda, que vai repetir a postura adotada em eleições anteriores e exigir
a sua participação em todos os debates. Em 2012, quando disputou a
Prefeitura de São Paulo, ele entrou na Justiça para garantir sua
presença no debate da Rede Globo. Conseguiu uma liminar, mas a emissora
acabou cancelando o evento. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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Quem chega de metrô a Itaquera, no extremo leste da cidade de São Paulo, avista da janela do trem o Itaquerão. O estádio, que receberá a partida de abertura da Copa do Mundo de 2014,
em 12 de junho, dá as boas-vindas a quem visita o bairro – e deverá se
transformar, ao longo dos próximos meses, numa das imagens mais
conhecidas do Brasil fora do país. A seu redor, Itaquera, lar de mais de
204 mil paulistanos, sofre profundas transformações. Além das obras do
estádio, o aumento do poder de compra da nova classe média alterou a
fisionomia do lugar. Atraído pelo novo momento econômico, o Shopping
Metrô Itaquera foi o primeiro grande empreendimento a surgir na região,
em 2007. Na semana passada, porém, a área comercial de 43.000 metros
quadrados, erguida de frente para a arena, ganhou o noticiário de forma
totalmente inesperada – sem nenhuma ligação com a Copa ou com a
prosperidade da nova classe média. A palavra que saiu de Itaquera e
ganhou o país foi “rolezinho”.
Foi assim: 6 mil jovens, a maioria deles com idade entre 14 e 17 anos,
responderam pelo Facebook a um convite para se reunir e ouvir funk
ostentação – variante do ritmo que exalta o consumo e as roupas de grife
– no estacionamento do Shopping Metrô Itaquera, em 7 de dezembro. O
shopping é o principal ponto de lazer da região. É ali que os
adolescentes se encontram corriqueiramente, para ver os amigos, comer no
McDonalds e ir ao cinema. Quando a reunião no estacionamento começou, a
segurança do shopping tentou dispersar a garotada. Mas eles, em lugar
de ir embora, rumaram para o interior do prédio. Quem lá estava pensou
tratar-se de um arrastão, e a confusão se instalou. E os brasileiros
ouviram falar pela primeira vez do rolezinho, um fenômeno cultural que
ocorre rotineiramente na periferia de São Paulo e que, até então, havia
passado despercebido. Depois da correria no Shopping Metrô Itaquera,
tudo mudou. O rolezinho foi sequestrado ideologicamente e virou palavra
de ordem. Radicais de um lado viram uma tentativa de integração forçada
dos excluídos. Radicais do outro lado tomaram o grupo de jovens como uma
ameaça social, um exemplo de baderna a ser contida – pela força, se
necessário. A rigor, não se trata nem de uma coisa nem de outra.
O rolezinho, segundo ÉPOCA apurou em longas conversas com seus
participantes e organizadores, é um encontro de jovens marcado pelas
redes sociais. Preferencialmente o Facebook. Pela rede social, milhares
deles combinam uma data para ir ao shopping “curtir, tumultuar e tirar
várias fotos”. O rolezinho começa na internet, e toda a sua mecânica
depende da rede. Quem cria o evento – geralmente um garoto desconhecido –
se ocupa de convidar gente famosa no bairro: meninas e meninos cujos
perfis na rede social têm até dezenas de milhares de seguidores, que são
chamados de “ídolos”. “Para funcionar, o rolezinho precisa ter o
ídolo”, diz Matheus Lucas Bernardo, de 16 anos e mais de 30 mil fãs
virtuais no Facebook. “Se chamar o ídolo, as meninas virão. E os meninos
virão atrás das meninas.” Matheus foi ao shopping encontrar as garotas
que o assediam nas redes sociais, suas fãs. Basta passear pelas fotos do
garoto no Facebook para cruzar com declarações apaixonadas das meninas,
que elogiam cada comentário que ele publica: “Elas me dão presentes.
Uma já mandou um tênis de R$ 600”, diz ele. Com outros dois amigos, foi
aos dois eventos marcados no Shopping Metrô Itaquera, mas diz que não
quer mais participar – durante o último rolezinho, o boné de um amigo
dele foi furtado. >> Ruth de Aquino: O rolezão do verão >> Eugênio Bucci: Do rolezinho ao rolezaço
Findo o rolezinho, a graça é voltar para o Facebook e publicar as
imagens do encontro. Quem vai ao rolezinho quer ver e ser visto. “Os
jovens têm um anseio muito grande por visibilidade e expressão”, afirma
Alexandre Barbosa Pereira, antropólogo e professor da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp). “Os Racionais MC’s, na música ‘Da ponte
pra cá’, dizem algo que explica muito bem esse desejo da juventude:
‘Quem não quer brilhar? Quem não? Mostra quem. Ninguém quer ser
coadjuvante de ninguém’. Os encontros nos shoppings possibilitam tudo
isso.” Por que no shopping? Porque os adolescentes gostam do ambiente.
Gostam das lanchonetes, das lojas, dos cinemas. Gostam dos corredores
bem iluminados e do ar-condicionado que ameniza o calor do verão. Em
Itaquera ou no Leblon, em Moinhos de Vento ou na Savassi, os jovens
brasileiros transformaram os grandes centros comerciais em seu lugar de
encontro favorito – com a aprovação, inclusive, dos pais, que percebem
os shoppings como lugares seguros.
A maioria dos adolescentes que foram aos rolezinhos já frequentava os
shoppings de bairro onde os eventos ocorreram. Os shoppings são para
eles uma segunda casa. “Os meninos que vieram são clientes nossos”, diz
Eduardo da Silva, subgerente da Bansurf. No Shopping Metrô Itaquera, a
Bansurf vende material de surfe, camisetas e tênis, produtos com apelo
em meio a esse público jovem. Durante os rolezinhos, Eduardo baixou as
portas – o rolezinho causa uma confusão que espanta os clientes,
atrapalhando o ganha-pão dos lojistas. Eduardo tem uma teoria sobre os
encontros que afetam seu negócio. “Falta espaço de lazer para essa
molecada. É um movimento meio rebelde.” Não é bem verdade que Itaquera
não ofereça outras opções. A subprefeitura do bairro lista três
bibliotecas, 12 centros culturais, dois CEUs (que funcionam como escolas
e centros de atividades), três parques e três clubes. O Sesc Itaquera,
também próximo, reúne famílias em dias de calor. Nenhum desses lugares,
porém, atrai os adolescentes como o shopping. “O centro cultural e os
parques não têm o mesmo glamour das lojas do shopping”, diz o vereador
Nabil Bonduki, do PT, ex-secretário de Urbanismo de São Paulo. Ao redor
de Itaquera, diz ele, há oito bairros que reúnem, aproximadamente, 3
milhões de moradores. Há um único shopping para recebê-los. No centro
ampliado de São Paulo, onde vivem 1,5 milhão de pessoas, existem 15
shoppings.
O rolezinho de Itaquera no dia 11 ganhou repercussão também pela ação
da polícia. Buscando dispersar os jovens aglomerados do lado de fora, no
terminal de ônibus, policiais militares usaram balas de borracha e
bombas de efeito moral. O encontro de jovens, que começara por volta das
cinco e meia da tarde, terminou melancólico duas horas depois. Um menor
de idade foi detido pela polícia e encaminhado para a Vara da Infância e
da Juventude. Na segunda-feira 13, o governador Geraldo Alckmin disse
que a Corregedoria da Polícia Militar apuraria se os policiais cometeram
abusos. Às 8 da noite, apesar da confusão, ninguém diria que algo fora
do comum acabara de acontecer, apesar do shopping vazio em pleno final
de semana. “Se eles quisessem quebrar as lojas, conseguiriam. É muita
gente para conseguir controlar”, diz Wesley Machado, dono do Wdog, um
quiosque de cachorro-quente no shopping. No primeiro rolezinho em
dezembro, Machado manteve o ritmo de vendas – famintos, os garotos
vieram comer. Nos dois rolezinhos seguintes, com a correria maior, houve
prejuízo, e o faturamento caiu cerca de 30%.
Embora tenham alcançado a fama só agora, as reuniões na periferia de
São Paulo convocadas pela internet acontecem desde os tempos do Orkut.
Pelas comunidades da rede social anterior ao Facebook, jovens já
marcavam encontros no estacionamento de shoppings para improvisar rimas,
ver a galera, dançar e curtir. Eram atraídos pelos grupos de DJs, MCs e
dançarinos que ajudaram a popularizar o funk da ostentação, a variação
do funk carioca que, em vez de fazer apologia das drogas, da pornografia
e da violência, exalta as grifes, os carrões e as mulheres. A maior
estrela da safra atual dessa vertente, o MC Guimê, fez tanto sucesso que
extrapolou as margens da cidade. Hits como “Tá patrão” (Tênis Nike Shox/Bermuda da Oakley/Camisa da Oakley/olha a situação) e “Plaque de 100” (De transporte nois tá bem/de Hornet ou 1100/Kawasaky tem Bandit/RR tem também) embalam a noite de baladas de luxo, como o Club A. Seu clipe País do futebol tem a participação do jogador Neymar e do rapper Emicida.
A explosão dos funkeiros – e da cultura da ostentação, que fez a cabeça
dos jovens da periferia – levou aos shoppings um novo fenômeno do ano
passado para cá: os encontros de fãs. Eles são os precursores dos
rolezinhos. Divulgados principalmente pelo Facebook, reúnem grupos
grandes de admiradores em torno de seus MCs preferidos, meninos em geral
menos conhecidos do que Guimê. Num encontro do MC Gui (o nome é
parecido, mas trata-se de outro) no estacionamento do Shopping Metrô
Itaquera, em abril do ano passado, centenas de meninas e meninos
histéricos se empurravam na tentativa de mirar suas câmeras e celulares
na direção do ídolo teen.
Febre entre os MCmaníacos, o encontro de fãs inspirou novas versões
desses eventos. No lugar de um MC conhecido por suas letras que
valorizam o luxo, são os “famosinhos” do Facebook que atraem multidões
de fãs aos shoppings da periferia. Por “famosinhos” – ou “ídolos” –
entenda-se adolescentes comuns que usam as redes para se promover com
vídeos caseiros e autorretratos, os selfies. Os mais cultuados entre
eles ultrapassam os 100 mil seguidores no Facebook.
Diva, Princesa do Castelo Rosa, Gata do Site. Esses são alguns dos
apelidos carinhosos dados pelas fãs à paulista Luana Thalia, de 16 anos,
de Mogi das Cruzes. Luana é uma celebridade virtual. Uma rápida busca
do seu nome na internet dá uma dimensão do porquê. Tal como um ídolo da
música ou do cinema, coleciona páginas no Facebook e blogs criados em
sua homenagem. Na rua, no supermercado ou na manicure da vizinhança, ela
é sempre abordada para tirar fotos, distribuir beijos ou ganhar
presentes. Certa vez, recebeu a visita de uma garotinha de Minas Gerais
que, na companhia do pai, deslocou-se do Estado vizinho só para vê-la.
Outra fã desistiu de uma entrevista de emprego para ir a um encontro
promovido por Luana. “Não sou atriz, não sou cantora, não fiz nada para
mudar o mundo. Não entendo por que tanta gente gosta de mim”, diz. “Não
tem como não dar valor para essas meninas”, afirma, deixando clara sua
humildade, qualidade curiosamente das mais prezadas entre a turma dos
rolezinhos – que tanto gosta de ostentar.
De tomara que caia de franjas, short no limite do bumbum, cabelo
pintado de preto e dois piercings (de argola no nariz e de strass
vermelho na barriga), Luana tem postura e corpo de mulherão. É o ideal
de feminino para as pequenas admiradoras, a maioria meninas mais jovens.
Não bastasse a estética privilegiada, ela dispensa uma boa dose de
atenção diária – chega a passar 12 horas seguidas na internet – a essas
adolescentes ultraconectadas, carentes e ansiosas por ser aceitas no
mundo. Para conversar com as garotas, Luana usa, além do Facebook e do
YouTube, uma rede social bastante popular entre elas, chamada Ask. O
funcionamento é simples: alguém faz uma pergunta curta, o dono do perfil
responde em poucas linhas. Há de questionamentos práticos (“Luh vou
compra minha melissa amanha qual vc acha melhor , dance hits ou ballet
?”) aos afetivos (“Lu porque é tão difícil arrumar a pessoa certa?”).
Nessa mistura de consultoria de moda e consultório sentimental, Luana vê
suas seguidoras se multiplicar.
Namorado e parceiro de fama de Luana, Daniel Santos, de 16 anos – ou
Divo, Príncipe do Cavalo Branco e Dan –, tem mais de 86 mil fãs no
Facebook, 254 mil curtidas no Ask e 354 mil visualizações no vídeo mais
acessado de seu canal de YouTube. Nele, o casal aparece dançando,
fazendo caretas, beijando na boca e soltando “puns” – uma mistura de
palhaçada, romantismo e nojeira que parece agradar a seu séquito de
devotos. “Eles são engraçados, fofos, nojentos. Um casal de verdade”,
afirma Agda Kovacs, de 13 anos. Tanta atenção já rendeu para a dupla um
dinheirinho extra. Luana já recebeu roupas e salário para divulgar em
suas redes lojas e baladas. Daniel ganha do YouTube pelas visualizações –
investe tudo em bonés de marca (tem um da Quiksilver, R$ 80) e tênis
caro (exibia um Nike Shox de R$ 600 na última semana).
A fama, no entanto, tem lá suas agruras. Quando o casal fez seu segundo
e último encontro de fãs, em novembro passado (a ideia das reuniões
partiu de uma admiradora), um mal-entendido gerado pelo tumulto
prejudicou a imagem de Luana nas redes. Mais de 1.000 jovens, segundo
eles, compareceram ao Shopping Tatuapé naquele dia. No meio da
aglomeração, ela diz ter precisado se escorar numa fã depois de passar
mal. Alguém fotografou o episódio e sugeriu que Luana estava empurrando a
garota. A reação negativa foi imediata. “Fui muito julgada, não saía
mais de casa, quase entrei em depressão”, diz Luana, que passou a
receber uma enxurrada de críticas nas redes. Seu Facebook, na época com
150 mil fãs, foi denunciado por abuso e bloqueado. “A inveja acabou com o
Face dela”, afirma Daniel.
É impossível explicar exatamente quando e como os encontros de fãs como
o de Daniel e Luana viraram encontros de jovens para badalar em massa
no shopping. Mas é certo que os rolezinhos atuais, com contornos de
violência e polêmica, se valeram do know-how de divulgação pela
internet, assim como da possibilidade de encontrar famosos – temperado
pelo tédio das férias e pelo gregarismo incontrolável dos adolescentes.
“Eu me sinto até um pouco culpada pelo que está acontecendo”, diz Luana.
Os organizadores dos rolezinhos mais recentes também estão preocupados
com a repercussão negativa que eles tiveram. “É muito polêmico. Sempre
tem quem aproveite para roubar e fazer baderna”, diz Jefferson Luis,
organizador do segundo rolezinho a ganhar fama, o do Internacional
Shopping Guarulhos, que aconteceu em 14 de dezembro passado. “É por isso
que nos julgam mal”, afirma. Jefferson tem 20 anos e canta funk desde
os 14. Começou se apresentando na escola, numa feira de artes. “Todo
mundo cantava rock. Eu queria fazer algo diferente”, diz. As letras, na
definição de seu autor, contam o dia a dia da comunidade onde vive, em
Guarulhos, na Grande São Paulo. Fazem um pouco de ostentação e valorizam
a mulher. “Novinha, seu jeito me encanta, verdadeira rainha da noite”,
canta numa das músicas. Fã do MC Daleste, Jefferson leva uma rosa
tatuada no punho esquerdo – tal qual seu ídolo, assassinado em julho de
2013 – e uma cruz dourada no pescoço.
A maioria dos shows de Jefferson (ou MC Jota L) – um por mês, se muito –
é gratuita. O objetivo é divulgar o próprio trabalho. A mãe, que muitas
vezes o leva de carona até as apresentações, brinca que o fã número um
de Jefferson é o irmão caçula, um menino de 11 anos. Como a música não
garante dinheiro, o rapaz trabalha como ajudante-geral numa empresa que
fornece som para eventos. Segundo de seis irmãos, saiu da escola para
trabalhar: “Mas voltei agora que meu irmão terminou os estudos dele”.
Foi durante as férias do supletivo que Jefferson teve a ideia de
organizar um rolezinho no shopping. “É um lugar seguro, que a gente
gosta de frequentar”, diz.
Jefferson mora à sombra do Internacional Shopping Guarulhos. O centro
comercial é visível da esquina da casa do rapaz. “Aqui, nas férias, ou a
gente empina pipa, ou fica no Facebook, ou vai ao shopping”, afirma. No
dia 14 de dezembro, ele decidiu ir ao shopping. Chamou seus 2 mil
amigos do Facebook para acompanhá-lo. Não definiu horário para o
encontro: “Eu não queria que todo mundo chegasse junto, para não
pensarem que era arrastão”, diz. “Até eu ia ficar com medo se visse 2
mil pessoas entrando de uma vez”. Duas mil e quinhentas pessoas
apareceram. Circulando pelos corredores do shopping, os adolescentes
batiam palma e repetiam os versos de Daleste: “Eita, p..., que cheiro de
maconha”. A imprensa mostrou, no dia seguinte, fotos de seguranças de
armas na mão abordando adolescentes. Vinte e três rapazes foram detidos
pela polícia. Jefferson entre eles. Mantidos na delegacia até alta
madrugada, foram liberados. Nenhum lojista ou cliente prestou queixa.
Conter os hormônios dos jovens nessa fase de angústia e autoafirmação
torna-se quase impossível quando surge uma novidade que atrai todos os
amigos – caso dos rolezinhos. Como segurar um filho em casa se todos os
amigos dele confirmaram presença no Facebook? A lojista Paula Mariotti
não conseguiu. Sem que soubesse, a filha e a sobrinha foram espiar o
encontro que terminou em tumulto no Shopping Metrô Itaquera, em 7 de
dezembro. Malu Mariotti, de 14 anos, e a prima Nathalia Guedes, de 12,
chegaram quando a confusão ainda não havia começado, por volta das 16
horas. Como acharam que estavam menos arrumadas do que as outras
garotas, decidiram correr de volta (no sentido literal mesmo) para o
guarda-roupa para trocar o modelito – mais precisamente, encurtar os
shorts. Quando voltaram, deram de cara com corre-corre e a presença dos
policiais. “Elas chegaram aqui apavoradas”, afirma Paula. “Rolezinho de
novo nem pensar. É mais fácil deixar as meninas irem a uma balada.”
O rolezinho, como os pais já perceberam, não é inteiramente inocente. A
algazarra promovida por seus praticantes, eventualmente somada a
pequenos crimes, prejudica de verdade os comerciantes. A prática, no
entanto, é pacífica na origem – tem como principal objetivo a diversão –
e não é política. As denúncias de violência policial no Shopping
Itaquera, no entanto, geraram manifestações de solidariedade pelo país –
uma delas prevista para o Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, e outra
para o Shopping Iguatemi, em Brasília. Alguns políticos viram o roteiro
dos protestos de junho se repetindo. Algo que começa despretensioso, num
segundo momento une multidões de jovens de cidades diferentes, sobrevém
a violência policial, e isso desencadeia um movimento de grandes
proporções – que faz desabar a popularidade dos políticos.
Novos protestos, desde que sejam democráticos – ou seja, sem violência
–, não são problema numa democracia e já são esperados para este ano de
Copa do Mundo. O problema, para os cidadãos e para as autoridades, é
descambarem para a violência. O temor de que isso aconteça com os
rolezinhos chegou a ser discutido numa reunião ocorrida na terça-feira
passada, no Palácio do Planalto. Os ministros Gilberto Carvalho, da
Secretaria-Geral da Presidência, Marta Suplicy, da Cultura, José Eduardo
Cardozo, da Justiça, e Luiza Bairros, da Igualdade Social, tratavam com
a presidente Dilma Rousseff de ações culturais promovidas pelo governo
durante a Copa do Mundo. Cardozo alertou sobre o perigo de que alguma
violência policial durante os rolezinhos desencadeie o mesmo processo
das manifestações de junho – que acabaram esvaziadas por causa da
violência do outro lado, os black blocs.
O governo e a prefeitura de São Paulo expressam a mesma preocupação. As
duas instâncias agiram afinadas como quando o prefeito Fernando Haddad e
o governador Geraldo Alckmin cantaram “Trem das onze” num evento em
Paris, em meados do ano passado. Expressando o pensamento de Alckmin, o
secretário estadual de Segurança Fernando Grella Vieira disse que os
rolezinhos não são uma questão policial, mas um “fenômeno cultural”.
Afirmou que “evidenciam a necessidade de o poder público investir em
opções de lazer para os jovens” e mandou um recado para a Polícia
Militar, talvez pensando nos acontecimentos do Shopping Itaquera: “Cabe à
polícia cuidar do espaço público. Shopping center é espaço privado”.
Usando a mesma postura conciliadora, o prefeito Fernando Haddad designou
o secretário municipal da Igualdade Racial, Netinho de Paula, para
conversar com os líderes dos rolezinhos. O objetivo das conversas é
desviar os eventos dos shoppings para espaços públicos – ideia à qual
alguns “rolezeiros”, aparentemente, já aderiram.
Haddad e Grella agem da forma correta para esvaziar os que querem
violência – os que demonizam os jovens, tratando-os como “bandidos”, e
os que demonizam os comerciantes, acusando-os de “racistas”. A verdade,
como sempre, é mais complexa. Ao mesmo tempo que a questão é simples, e
se resume aos limites legais. Os jovens do rolezinho buscam diversão –
mas, quando essa diversão provocar perturbação da ordem, os lojistas têm
o direito de chamar a polícia, que cuida da ordem pública. Do outro
lado, os comerciantes têm o direito de proteger seu ganha-pão – mas, se
agirem de forma preconceituosa, terão de responder à lei brasileira.
Respeitadas as regras básicas da convivência democrática, todos têm o
direito de trabalhar, se divertir – ou protestar pacificamente, se
quiserem.
Matheus Batista – de 16 anos e 47 mil fãs no Facebook – estava no
Shopping Metrô Itaquera em 11 de dezembro. Com outros cinco amigos,
queria encontrar algumas meninas. Não teve chance. Pouco depois de sua
chegada, começou a confusão: “A gente foi lá para curtir. Mas os caras
começaram a roubar os bonés dos outros, e saiu muita briga”, diz.
Matheus estava com um grupo de amigos no banheiro quando um segurança
apareceu. “Ele falou que ia quebrar a gente. Mas saiu sem fazer nada”,
diz. “Eu entendo o lado dele. Tinha muita gente bagunçando.” Morador de
Itaquaquecetuba – distante uma hora e meia de Itaquera –, Matheus se
diverte indo ao shopping e a bailes funk e não desistiu dos rolezinhos.
Disse que irá aos próximos: “Foi maneiro’.
O bimotor King Air prefixo PT-OZP pousou no aeroporto de Paragominas,
região nordeste do Pará, num domingo. Seu passageiro mais ilustre, o
ministro da Agricultura, Antonio Andrade, chegava para participar de uma
feira agropecuária. Produtores, criadores, prefeitos, deputados e até o
governador do Estado, Simão Jatene (PSDB), esperavam Andrade para a
solenidade em que ele anunciaria oficialmente que a região fora
considerada zona livre da febre aftosa. Notícia alvissareira. Caía um
obstáculo para os criadores da região venderem sua carne. Andrade fez a
viagem de Belém a Paragominas no avião das empresas do senador Jader Barbalho,
seu colega de PMDB. Mas Jader não estava. Quem acertou a viagem do
ministro e o levou até Paragominas foi Hélder Barbalho, filho de Jader e
pré-candidato a governador do Pará na eleição deste ano.
Na política,
ele é apenas Hélder – o sobrenome Barbalho não é muito citado. Mas a
associação é inescapável. As sobrancelhas de taturana que quase formam
um vértice no meio, a voz e o jeito de falar são herança de Jader
Barbalho. Hélder, de 34 anos, tem o estilo de discursar do pai. “Se você
fechar os olhos, acha que está ouvindo o Jader”, diz o senador Flexa
Ribeiro (PSDB-PA). Aos 10, 12 anos, ou “desde criança pequenina”, como
diz, Hélder acompanhava o pai e a mãe, a deputada Elcione Barbalho, a
reuniões políticas, encontros partidários e ouvia discursos. Hélder é o
escolhido para manter a família Barbalho no exercício do poder pela
terceira geração.
Como ele, outros herdeiros disputarão cargos neste ano. Em Roraima, a
continuidade dos Jucás está encaminhada. Rodrigo Jucá, de 32 anos, filho
do senador Romero Jucá (PMDB), será o vice na chapa do candidato ao
governo Chico Rodrigues (PSB). Hélder e Rodrigo dispõem de todos os
instrumentos que a política brasileira contemporânea exige para serem
eleitos. Seus pais acumularam patrimônio econômico, empresas na área de
comunicação e o controle do poder regional de seu partido. Assim, eles
têm dinheiro, acesso privilegiado a doadores de campanha, exposição
garantida e tapete vermelho na estrutura partidária. Basta aproveitar.
Todos os dias, às 9 horas da manhã, milhares de paraenses ouvem a voz
de Hélder pela rádio Clube, a emissora AM de maior audiência do Pará –
uma das oito rádios dos Barbalhos, que ainda têm quatro retransmissoras
de televisão e um jornal. “Participe, ligue pra gente, converse com todo
o Estado do Pará, fale aquilo que você deseja. Que o Pará lhe escute,
que o Brasil lhe ouça!”, diz Hélder na abertura do Programa do Hélder,
retransmitido por emissoras de todo o Estado. Hélder começou a carreira
de radialista em março do ano passado, dois meses depois de deixar o
cargo de prefeito de Ananindeua. A estreia foi precedida por uma
campanha publicitária feita pela rádio e pela RBA, um dos canais de
televisão da família Barbalho. Durante uma hora, Hélder apresenta um
programa de utilidade pública, com repórteres que trazem notícias de
todo o Pará. “Quando deixei a prefeitura, tomei a decisão de fazer um
programa informativo para ter oportunidade de conversar com o Pará”, diz
Hélder. No programa de 6 de janeiro, durante 13 minutos, um repórter
relatou como uma erosão derrubou casas e deixou 30 famílias desabrigadas
em Abaetetuba. Outro assunto foi a remoção de famílias de um bairro de
Belém, por causa das obras de duplicação de uma avenida. Sobre essa
notícia, Hélder fez o seguinte comentário: “A obra foi paralisada pelo
atual governo. Com a paralisação, a população, sem saber o que iria
acontecer, acabou invadindo o residencial Liberdade. O que me parece que
está se passando com o governo é que está chegando a eleição e aí bate o
desespero de quem está no mandato e não tem o que mostrar, e aí começa a
fazer as coisas de afogadilho”. Hélder se manterá no rádio até o início
da campanha eleitoral. “Se isso vai me dar retorno eleitoral, só no
futuro vamos ver. Espero que dê”, afirma Hélder.
Além da uma hora diária no ar, o programa promove o evento “Programa do
Hélder no meu bairro”, que oferece serviços de exames médicos simples,
dentistas, atendimento jurídico e emissão de documentos, como carteira
de trabalho, certidão de nascimento, e até cortes de cabelo. Como
vice-presidente do PMDB, Hélder ainda visitou 18 cidades com o evento “O
que o Pará quer”. Nessas visitas, Hélder ouve prefeitos, faz um
discurso e abre espaço para perguntas. Os prefeitos costumam alugar
ônibus para levar cidadãos e formar uma claque. Em novembro, o
Ministério Público Federal do Pará apresentou uma ação em que pede que o
PMDB paraense perca 47 minutos de tempo de propaganda partidária. De
acordo com a representação, o partido fez campanha antecipada a favor de
Hélder em seu programa de novembro.
Até o final de 2012, os Barbalhos faziam parte do governo do tucano
Simão Jatene. No segundo semestre de 2013, Jader acertou com o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o acordo pelo qual Hélder será o
candidato do PMDB ao governo, com apoio do PT. Em troca, o candidato da
chapa ao Senado será Paulo Rocha, um ex-deputado que se livrou no
julgamento do mensalão. História semelhante aconteceu em 2010, com os
partidos invertidos. Os Barbalhos saíram do mal avaliado governo da
petista Ana Júlia Carepa para apoiar Simão Jatene.
Hélder é a terceira geração da família na política. Seu avô, Laércio
Barbalho, foi cassado pela ditadura militar em 1964, após uma curta
carreira como deputado estadual pelo Partido Social Democrático (PSD). O
revés provocou a primeira transição familiar na política. Três anos
depois, seu filho Jader Barbalho, então com 23 anos, elegeu-se vereador
em Belém pelo MDB. Jader decolou. Foi deputado federal, governador do
Pará em dois mandatos, duas vezes ministro no governo do presidente José
Sarney e senador. Hélder começou a carreira em 2000, como vereador,
quando o pai viveu seu apogeu como presidente do Senado. No ano
seguinte, no entanto, Jader despencou: renunciou ao mandato de senador,
acusado de desvios no Banpará. No ano seguinte, Jader foi preso pela
Polícia Federal, acusado de fraudar empréstimos concedidos pela Sudam,
responsável por financiar projetos capazes de desenvolver a Amazônia.
Jader voltou em 2006 como deputado federal e hoje é um silencioso
senador, que só pronunciou um discurso em dois anos.
Hélder executou uma trajetória de saltos rápidos. Para evitar a disputa
mais difícil em Belém, optou por ser candidato em Ananindeua, na região
metropolitana – a segunda maior cidade do Pará. Venceu três eleições
entre 2000 e 2004 – para vereador, deputado estadual e prefeito (por
dois mandatos). Não esqueceu a família quando foi prefeito. Em 2012,
inaugurou o Conjunto Jader Barbalho, na periferia de Ananindeua. A placa
de inauguração foi descerrada pelo próprio homenageado e, para não
deixar dúvidas, tinha uma foto de Jader. Sua administração começou – e
abandonou – a construção de um estádio de futebol na cidade. No ano
passado, o Ministério Público do Pará o denunciou à Justiça por ter
deixado de passar R$ 1,8 milhão ao fundo de pensão dos funcionários da
prefeitura. Hélder ampliou o número de funcionários contratados sem
concurso, parte deles por indicação política. Segundo o IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), entre 2009 e 2012 o número de
comissionados cresceu 38% – subiu de 2.939 para 4.056.
Aos 32 anos, com um mandato incompleto de deputado estadual e uma
carreira bem mais curta que a de Hélder, Rodrigo Jucá (PMDB) será
candidato a vice-governador de Roraima. A chapa que tem o apoio de 18
partidos. Advogado formado em Brasília, criado entre Boa Vista e
Brasília, Rodrigo não é um fenômeno da política. A aliança tão ampla é
produto da articulação de seu pai, o senador Romero Jucá (PMDB).
Ex-líder dos governos Fernando Henrique, Lula e Dilma no Senado, Jucá é
um desses fenômenos capazes de produzir arranjos políticos aparentemente
impossíveis no Congresso Nacional. Em Roraima, seu domínio desde a
década de 1980, o trabalho é bem mais simples.
No início das conversas, o próprio Romero Jucá era o preferido como
candidato. Mas ele prefere ficar no Senado. Sugeriu, então, o filho.
Rodrigo mora em Roraima há mais de dez anos. Foi superintendente do
Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa) por
quatro anos. “Ele acompanhou minha vida”, diz Romero Jucá, o pai. “Pedi a
ele que, em vez de entrar mais cedo, fosse se formar para ter lastro,
para exercer mandato depois.” Em 2010, Rodrigo foi eleito deputado
estadual, o segundo mais bem votado do Estado. “Entrei na política com
28 anos, não precipitei”, diz Rodrigo. “Quando senti que não seria
artificial, fui candidato.” Rodrigo foi deputado durante dois anos. Mas a
Assembleia Legislativa roraimense tem problemas. Alguns deputados que
lá exercem seu mandato foram alvo da Polícia Federal na Operação
Gafanhoto, em 2004 – que apurou um desvio de mais de R$ 200 milhões pela
contratação de funcionários fantasmas em Roraima. No ano passado,
Rodrigo pediu licença do mandato para assumir o cargo de secretário de
Educação da prefeitura de Boa Vista, a capital do Estado. A prefeita é
Tereza Surita, ex-mulher de Romero Jucá.
Nos registros, apesar da pouca idade, Rodrigo é um empresário de
sucesso, sócio de seis empresas e com um patrimônio de R$ 3,6 milhões.
Na verdade, nada é dele. Os bens foram repassados para seu nome pelo
pai. Em sua declaração de bens, apresentada em 2010, Romero Jucá ficou
apenas com R$ 600 mil. Como o colega Jader Barbalho, Jucá acumulou um
patrimônio considerável em sua vida política. Tem várias empresas, entre
elas rádios e retransmissoras de televisão em seu Estado. Parte dessas
empresas, como a Buritis Comunicações, que administra rádios e TVs, está
em nome de Rodrigo. Como Hélder, Rodrigo tem tudo isso a seu favor para
atuar na política. “Seria hipocrisia minha dizer que não ajuda (o fato de ser filho de Jucá).
Muitos só usufruem a condição familiar; outros são comprometidos com a
política. Depende como você conduz sua carreira”, diz Rodrigo. “Acho que
minha geração tem a obrigação de trabalhar pela modernização da
política.”
No ano passado, Romero Jucá lançou o movimento Roraima Forte, uma
maneira de arregimentar apoio à aliança. Apesar de apoiar o governo
Dilma, em seu Estado o aliado preferencial do PMDB de Jucá é o PSDB do
governador José de Anchieta Júnior. Incansável, Jucá participou de
eventos do Roraima Forte pelo Estado. Com Rodrigo, foi a festas
folclóricas em Iracema, São Luís e Rorainópolis. A campanha em Roraima
pode ser mais emocionante do que isso. Na última, em 2010, um
colaborador da campanha de Jucá jogou um pacote com R$ 100 mil pela
janela do carro quando percebeu que era seguido por um carro da Polícia
Federal. Outro, em Mucajaí, foi preso com R$ 80 mil em espécie.
Em início de carreira, Hélder Barbalho e Rodrigo Jucá podem analisar a
trajetória de outros herdeiros anteriores para planejar seu futuro. Um
exemplo à mão é o da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, também do
PMDB, também aliada de Dilma. Como ambos, Roseana herdou do pai, o
ex-presidente José Sarney, a veia política. Como Hélder e Rodrigo, a
família de Roseana tem emissoras de rádio e televisão. Roseana foi
deputada, senadora e hoje é governadora do Maranhão. Foi candidata a
presidente da República em 2002, mas desistiu quando a Polícia Federal
apreendeu R$ 1,3 milhão em dinheiro vivo numa de suas empresas. Roseana
está em seu terceiro mandato como governadora. Há um mês, seu governo é
lembrado no país todo pelas execuções macabras no presídio em condições
pré-históricas de Pedrinhas. Seu governo teve R$ 22 milhões para
construir três presídios – mas, por falta de projetos, perdeu direito a
usufruir essa verba do governo federal.
Lei que pune com multa empresa que pagar propina entra em vigor nesta quarta-feira
A partir de agora,
subornar funcionários públicos para obter contratos pode ficar caro para
empresas como a Alston, que, investigada desde 2008, continua a receber
dinheiro de governos, inclusive o federal
Pieter Zalis e Hugo Marques
(Fernando Cavalcanti)
A empresa francesa Alstom sempre negou que tivesse cometido
irregularidades para conseguir contratos no Brasil. Agora, um documento a
desmente. Em um processo na França, um ex-diretor da companhia afirmou
que ela pagou 15% de “comissão” (o eufemismo mundial para propina) a
representantes do governo paulista para conseguir um suplemento de 45,7
milhões de dólares sobre um contrato firmado quinze anos antes. O
depoimento do ex-diretor, André Botto, foi revelado pelo jornal Folha de S.Paulo. Ele ocorreu em 2008, o mesmo ano em que começou a investigação dos cartéis em São Paulo (veja o quadro).
O fato de há tempos existirem indícios de que a Alstom subornou
autoridades no Brasil não impediu, porém, que a empresa continuasse a
receber dinheiro dos cofres públicos.
O caso Alstom/Siemens, como é praxe na política, virou dinamite na
guerra eleitoral entre os partidos. Por meios explícitos, e também
tortuosos, o PT e alguns de seus representantes no governo vêm se
empenhando para que a bomba exploda em colo tucano no momento mais
adequado. Difícil, no entanto, será explicar ao eleitorado o motivo pelo
qual, mesmo diante de suspeitas tão antigas, o governo federal manteve
os contratos com a Alstom, à qual entregou 183 milhões de reais nos
últimos dez anos.
Há exemplos piores. Entre 2003 e 2010, durante os governos Lula, a
Delta, empreiteira do empresário Fernando Cavendish, atingiu a incrível
marca de uma licitação ganha por semana. Somados, os 430 contratos da
empresa com o governo totalizavam 5 bilhões de reais. Vasculhando a
contabilidade da empreiteira, uma CPI aberta em 2012 descobriu que o
sucesso da Delta nas licitações aumentava na mesma medida das
contribuições que ela fazia para campanhas de políticos do governo.
Situações como essa proliferaram no país em parte porque, até agora,
não havia leis específicas para punir empresas corruptas. Na esfera
administrativa, a pena máxima era a entrada dessas empresas numa lista
negra. Quem estivesse nela não mais teria direito a contratos no serviço
público. Mas o procedimento está repleto de brechas, como bem sabe a
Delta. Incluída na lista de companhias inidôneas em junho de 2012, ela
ainda recebeu 423 milhões de reais do governo naquele ano e outros 210
milhões em 2013. E agora criou outra empresa, a Técnica Construção, que
está pronta para abocanhar licitações quentinhas.
Isso está para mudar. Nesta semana, começa a valer a Lei de Combate à
Corrupção. Ela prevê que empresas flagradas pagando propina poderão ser
multadas em até 20% do seu faturamento ou, em casos extremos, ser
fechadas. Leis como essa já vigoram desde 1977 nos Estados Unidos e
desde 1998 na Alemanha. “É a primeira vez que teremos no Brasil
penalidades que atingem a conta bancária das companhias”, diz o ministro
da Controladoria-Geral da União, Jorge Hage. Afugentar as empresas
corruptas sangrando seus cofres, afinal, pode ser bem mais eficiente do
que esperar que os governos se preocupem em ficar longe delas.
Com reportagem de Alexandre Aragão
Pesquisadora quer provar que Hitler morreu no Brasil aos 95 anos
do BOL, em São Paulo
AP
De acordo com nova obra, Hitler esteve no Brasil após a Segunda Guerra em busca de um tesouro
Oficialmente, Adolf Hitler suicidou-se em 30 de abril de 1945 após
ingerir cianureto e disparar uma arma contra a própria cabeça. Apesar
das inúmeras referências historiográficas que comprovam essa versão, não
faltam teorias para contrariá-la. Uma das versões mais célebres é de
que o ditador nazista teria fugido para a América do Sul, vindo a se
esconder no Brasil.
É esta versão que a pesquisadora brasileira
Simoni Renée Guerreiro Dias explora em sua dissertação de mestrado em
jornalismo. Da pesquisa surgiu a obra "Hitler no Brasil - sua vida e sua
morte", onde Simoni desafia a versão oficial e aponta que Adolf Hitler
escapou do bunker de Berlim, no final da Segunda Guerra, e morreu no
Brasil, em 1984, aos 95 anos, na cidade de Nossa Senhora do Livramento, a
42 km de Cuiabá.
A autora acredita que o führer fugiu para a
Argentina e depois para o Paraguai antes de se estabelecer no estado
brasileiro de Mato Grosso, onde passou a utilizar o nome falso de Adolf
Leipzig.
A obra ainda destaca outra teoria
bizarra: a de que Hitler teria vindo ao país em busca de um tesouro
enterrado. Se não bastasse, Hitler teria em mãos um mapa dado a ele por
aliados do Vaticano. A teoria bizarra aponta ainda que ele teria tido um
relacionamento com uma mulher negra chamada Cutinga, para não chamar a
atenção para sua verdadeira identidade.
Como
ninguém quer acreditar nesta teoria maluca, Simoni planeja usar testes
de DNA para mostrar semelhanças entre o material genético de um suposto
parente de Hitler que vive em Israel com restos mortais de Adolf Leipzig
a partir de seu suposto lugar de descanso final em Nossa Senhora do
Livramento. Só que ainda falta-lhe a permissão da Justiça para exumar o
corpo.
Candido Moreira Rodrigues, professor de
história na Universidade Federal de Mato Grosso, disse ao jornal Daily
Mail que não há nada de novo em pessoas que se dizem historiadores
chegando com teorias mirabolantes sobre a vida de Hitler na América do
Sul, já que alguns dos nazistas mais famosos se refugiaram
comprovadamente na região depois do fim da guerra, como Adolf Eichmann e
Josef Mengele.
Isso acontece porque falta
qualquer evidência física de sua morte. Ao atirar contra a própria
cabeça, seu crânio se espatifou em centenas de fragmentos. Para piorar,
os fragmentos encontrados, de acordo com testes de DNA, pertenciam a uma
mulher.